Meditação do Evangelho de hoje
Uma noite inteira antes de escolher
Formação do dia 28/10/2026, na caminhada até o Pentecostes de 2033 · Ano da Sabedoria
Imaginemos a montanha ao cair da tarde. O vento esfria, as vozes da multidão ficam lá embaixo, e Jesus sobe sozinho. São Lucas anota um detalhe que nenhum outro evangelista guarda com a mesma insistência: Ele passou a noite inteira em oração a Deus (Lc 6,12). Não uma hora, não um intervalo entre dois compromissos. Uma noite inteira, com o frio da pedra, o silêncio das estrelas e o Pai como único interlocutor. Só ao amanhecer, quando a luz volta a desenhar o contorno das coisas, Ele chama os discípulos e escolhe doze.
A ordem da cena é a mensagem. Primeiro a noite com o Pai, depois a escolha. O Catecismo observa que Jesus reza antes dos momentos decisivos da sua missão e cita expressamente a escolha dos Doze (CIC 2600). O Filho, que conhece o coração humano por dentro, não escolhe a partir de impressões, de afinidades ou de cálculo. Escolhe a partir do olhar do Pai.
Os nomes que Ele escolhe
Basta ler a lista com atenção para perceber o que esse olhar enxerga. Ali estão Simão, chamado Zelota, provavelmente ligado aos que sonhavam expulsar Roma pela força, e Mateus, o publicano que trabalhava para Roma recolhendo impostos. Pelos critérios do mundo, os dois não caberiam na mesma mesa. Ali estão também Judas, filho de Tiago, de quem os Evangelhos guardam apenas uma pergunta feita na Última Ceia (Jo 14,22), e Judas Iscariotes, que se tornaria traidor. Jesus rezou a noite inteira e, ao amanhecer, escolheu também ele.
Isso nos desconcerta, porque esperamos que a oração nos poupe do risco. Não poupa. A oração de Jesus não lhe deu uma lista de pessoas sem falhas; deu-lhe a capacidade de ver cada um como o Pai o vê, com a sua história, a sua ferida e a sua vocação. E é sobre esses homens frágeis que a Igreja se apoia: São Paulo dirá, na leitura de hoje, que somos edifício construído sobre o alicerce dos apóstolos e dos profetas, tendo o próprio Cristo como pedra angular (Ef 2,20).
O dom da Ciência
Hoje pedimos o dom da Ciência. Ele não se confunde com cultura, nem com a ciência das universidades, embora não seja inimigo de nenhuma delas. Santo Tomás de Aquino ensina que o dom da Ciência nos faz julgar com retidão as coisas criadas à luz da fé, percebendo o lugar que cada uma ocupa diante de Deus (Suma Teológica, II-II, q. 9, a. 2). É o dom que nos ensina a ver o mundo, as pessoas e os acontecimentos como a montanha ensinou Jesus a ver os Doze.
Sem esse dom, olhamos as pessoas pela utilidade, pela simpatia ou pelo medo. Classificamos o colega, o vizinho, o filho e até nós mesmos com critérios que cabem numa planilha. Com ele, começamos a enxergar que nenhuma criatura é absoluta e que nenhuma está perdida. A mesma tradição liga este dom à bem-aventurança dos que choram (Mt 5,4), porque quem vê as coisas como são sente o peso do que se desordenou, em si e nos outros, e chora com esperança, não com desespero.
Neste ano da Sabedoria, a Ciência é o degrau que a prepara. A Sabedoria saboreia Deus; a Ciência aprende a reconhecê-lo nas coisas e nas pessoas que Ele pôs ao nosso lado.
Desafio de hoje: oração antes de tomar uma decisão
Há alguma escolha à nossa espera: uma conversa difícil, uma decisão de trabalho, uma resposta que estamos adiando, uma pessoa que já julgamos. Hoje não vamos decidir antes de subir a montanha.
- Antes da decisão, reservemos dez minutos de silêncio, de preferência diante do Santíssimo ou num lugar quieto, e entreguemos ao Pai o nome da pessoa ou da situação.
- Perguntemos com sinceridade: como Deus vê esta pessoa? O que Ele vê nela que eu me recuso a ver?
- Só depois decidamos, aceitando que a oração não elimina o risco, mas purifica o olhar.
Se a decisão envolver alguém que nos parece um Simão ou um Mateus, alguém que pensa o oposto de nós, lembremos que Jesus os pôs lado a lado e fez deles colunas da mesma casa.
Espírito Santo, que conduzistes Jesus à montanha e lhe mostrastes os rostos que o Pai lhe confiava, dai-nos o dom da Ciência. Ensinai-nos a ver as pessoas e as coisas como Vós as vedes, sem desprezo e sem idolatria. Por intercessão de São Simão e São Judas, apóstolos, tornai-nos pedras vivas da Igreja que se apoia sobre o testemunho deles. Amém.
Quinze minutos no Cenáculo
- Leia esta formação com calma (cerca de 5 minutos).
- Faça 5 minutos de silêncio, com o nome da sua decisão diante de Deus.
- Escolha o passo do desafio e reze a oração (cerca de 5 minutos).
Perguntas sobre esta meditação
O que diz o Evangelho de 28 de outubro de 2026 (Lc 6,12-19)?
São Lucas conta que Jesus subiu à montanha e passou a noite inteira em oração a Deus. Ao amanhecer, chamou os seus discípulos e escolheu doze, a quem deu o nome de apóstolos. Depois desceu com eles, e uma grande multidão procurava tocá-lo, porque dele saía uma força que curava a todos (Lc 6,12-19).
Por que Jesus passou a noite inteira em oração antes de escolher os Doze?
Porque a ordem da cena é a mensagem: primeiro a noite com o Pai, depois a escolha. O Catecismo observa que Jesus reza antes dos momentos decisivos da sua missão e cita expressamente a escolha dos Doze (CIC 2600). A oração não lhe deu uma lista de pessoas sem falhas; deu-lhe a capacidade de ver cada um como o Pai o vê, com a sua história, a sua ferida e a sua vocação.
O que é o dom da Ciência e como ele aparece neste Evangelho?
O dom da Ciência não se confunde com cultura nem com a ciência das universidades. É o dom pelo qual o Espírito Santo nos ensina a ver as pessoas e as coisas como Deus as vê, reconhecendo que nenhuma criatura é absoluta e que nenhuma está perdida. No Evangelho, é o olhar com que Jesus vê os Doze. A tradição o liga à bem-aventurança dos que choram (Mt 5,4).
Quem eram São Simão e São Judas, apóstolos celebrados em 28 de outubro?
Os dois estão na lista dos Doze escolhidos por Jesus nesse mesmo Evangelho. Simão é chamado de Zelota, e Judas é o filho de Tiago, de quem os Evangelhos guardam apenas uma pergunta feita na Última Ceia (Lc 6,15-16; Jo 14,22). A Igreja os celebra juntos na festa de hoje, e a primeira leitura lembra que somos edifício construído sobre o alicerce dos apóstolos, tendo Cristo como pedra angular (Ef 2,19-22).
Como aplicar essa passagem a uma decisão difícil?
Antes de decidir, reservar dez minutos de silêncio com o nome da decisão diante de Deus, de preferência diante do Santíssimo ou em um lugar de recolhimento. Em seguida, olhar para quem estamos julgando como Jesus olhou para os Doze, lembrando que Ele pôs lado a lado homens muito diferentes e fez deles colunas da mesma casa. A meditação traz o roteiro completo e uma oração pelo dom da Ciência.
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