A luz desceu uma vez.

Os Padres a guardaram nos livros.

Pentecostes 2033

Os Padres e Pentecostes

O que os mestres dos primeiros séculos, Tomás de Aquino e o Magistério ensinaram sobre o dia em que a Igreja nasceu.

A premissa

A luz que desceu em Pentecostes chegou até nós pela mão dos Padres.

Eles não inventaram a fé de Pentecostes. Receberam-na, defenderam-na e a explicaram aos fiéis.

Chamamos Padres da Igreja os escritores cristãos dos primeiros séculos cuja doutrina é reconhecida como ortodoxa e cuja santidade de vida a Igreja aprovou.

Quatro notas os distinguem na tradição: antiguidade, ortodoxia de doutrina, santidade de vida e aprovação da Igreja. Em catequeses e homilias, explicaram a fiéis recém-batizados o que aconteceu no Cenáculo, porque o Espírito foi dado e o que isso muda na vida de quem crê.

Lê-los é perguntar a quem esteve mais perto das fontes o que aquele dia significa.

Nesta página, todos os textos são resumos nossos. Para cada mestre indicamos a obra e o lugar onde procurar a passagem, para que o leitor confirme na fonte.
I

O Espírito é Pessoa divina

Não é uma força nem uma criatura. É Deus, com o Pai e o Filho.

II

Pentecostes faz a Igreja

No cinquentenário da Páscoa, a comunidade reunida se torna missão.

III

As línguas desfazem Babel

O Espírito reúne em uma só fé os povos que a soberba havia dispersado.

IV

O Espírito é alma do Corpo

Ele dá vida, unidade e movimento ao Corpo de Cristo, que é a Igreja.

Linha dos séculos

Cinco mestres, um mesmo Pentecostes.

A luz acompanha a sua rolagem: cada mestre se acende quando você chega a ele.

  1. c. 350século IV

    São Cirilo de Jerusalém

    Bispo e catequista · Catequeses 16 e 17

    Em Jerusalém, a cidade do Cenáculo, Cirilo preparava os catecúmenos para o Batismo. Nas duas catequeses dedicadas ao Espírito Santo, ensina que ele é Pessoa divina, e não criatura nem mero poder de Deus.

    Para explicar como o Espírito é um só e age de muitos modos, recorre à imagem da água: uma só chuva rega todo o jardim e, em cada planta, dá flor diferente.

    Aprofundar

    Como as catequeses foram pregadas a candidatos ao Batismo, o ensino de Cirilo mostra que o dom de Pentecostes não ficou restrito aos apóstolos: a Igreja o comunica a cada novo cristão. Vale ler as duas catequeses em sequência.

    Onde procurar: Catequeses 16 e 17, também conhecidas como as catequeses batismais sobre o Espírito Santo.

  2. c. 380século IV

    São Gregório Nazianzeno

    Bispo e Doutor da Igreja · Oração 41, Sobre o Pentecostes

    Chamado o Teólogo, Gregório pregou uma homilia inteira sobre a festa. Nela explica o significado dos cinquenta dias: sete semanas completas e mais um dia, número que ele lê como sinal de plenitude.

    Ensina ainda que, em Pentecostes, o Espírito reúne em unidade o que Babel dividira, e que o dom das línguas é sinal da unidade da fé.

    Aprofundar

    Em outro texto, o Quinto Discurso Teológico, Gregório defende com rigor que o Espírito Santo é Deus. A defesa tem consequência pastoral: se o Espírito não fosse divino, não poderia nos divinizar. A homilia sobre o Pentecostes e o discurso teológico devem ser lidos juntos.

    Onde procurar: Oração 41 (Sobre o Pentecostes) e Oração 31 (Quinto Discurso Teológico).

  3. c. 410 a 430século V

    Santo Agostinho

    Bispo de Hipona e Doutor da Igreja · Sermões 267 a 271

    Nos sermões que pregou no tempo de Pentecostes, Agostinho propõe uma imagem que a Igreja repetiria por séculos: o que a alma é para o corpo humano, o Espírito Santo é para o Corpo de Cristo, que é a Igreja.

    Lembra também que os apóstolos falaram todas as línguas porque a Igreja, espalhada pelo mundo, falaria todas as línguas e seria uma só.

    Aprofundar

    No livro XV do tratado sobre a Trindade, Agostinho explica por que Amor e Dom são nomes próprios do Espírito Santo. Aquilo que o Pai e o Filho têm em comum, a sua comunhão de amor, é uma Pessoa, e é essa Pessoa que nos é dada. Tomás de Aquino retomará esse caminho.

    Onde procurar: Sermões 267 a 271, em Pentecostes, e Sobre a Trindade, livro XV.

  4. c. 450século V

    São Leão Magno

    Papa e Doutor da Igreja · Sermões 75 a 77

    Em sermões breves e de grande clareza, o papa Leão situa Pentecostes no quinquagésimo dia depois da Ressurreição, dez dias depois da Ascensão, e mostra nele o cumprimento da promessa que Cristo fizera aos discípulos.

    Insiste que Pai, Filho e Espírito Santo são inseparáveis em tudo o que fazem. Por isso o Espírito dado em Pentecostes não substitui Cristo: torna presente a sua obra.

    Aprofundar

    Leão pregava ao povo de Roma, em linguagem concisa e de grande clareza. Por isso os três sermões sobre Pentecostes são um bom ponto de partida para quem começa a ler os Padres.

    Onde procurar: Sermões 75, 76 e 77, sobre a solenidade de Pentecostes.

  5. c. 1270século XIII

    Santo Tomás de Aquino

    Frade dominicano e Doutor da Igreja · Suma Teológica

    Tomás reúne a tradição dos Padres em um sistema. Pergunta como uma Pessoa divina pode ser enviada: ela vem de modo invisível à alma que recebe a graça e, em Pentecostes, veio de modo visível, em sinais como as línguas de fogo.

    Estuda também os dons do Espírito Santo, que aperfeiçoam as virtudes para que o cristão se deixe mover por Deus.

    Aprofundar

    Para Tomás, os sinais visíveis de Pentecostes revelam algo que acontece sempre que alguém recebe a graça. Pentecostes é, assim, um acontecimento único na história e, ao mesmo tempo, o modelo do que o Espírito realiza em cada fiel.

    Onde procurar: Suma Teológica, I, q. 43 (as missões das Pessoas divinas); I-II, q. 68 (os dons do Espírito Santo); III, q. 72 (o sacramento da Confirmação).

Magistério

O que a Igreja ensina, de concílio em concílio.

O ensino dos Padres foi recolhido, ao longo dos séculos, em decisões de concílios, encíclicas e no Catecismo.

381

Primeiro Concílio de Constantinopla

Completa o Credo de Niceia e confessa o Espírito Santo como Senhor que dá a vida, que procede do Pai e que é adorado e glorificado com o Pai e o Filho. É a base de toda a doutrina posterior sobre a sua divindade.

1897

Leão XIII, Divinum illud munus

Primeira encíclica dedicada inteiramente ao Espírito Santo. Retoma a imagem de Agostinho e ensina que ele é, para a Igreja, o que a alma é para o corpo.

1964

Concílio Vaticano II, Lumen gentium, n. 4

Ensina que, concluída a obra confiada pelo Pai ao Filho, o Espírito Santo foi enviado em Pentecostes para santificar a Igreja continuamente.

Ler a Lumen gentium no site do Vaticano

1986

João Paulo II, Dominum et Vivificantem

Carta sobre o Espírito Santo na vida da Igreja e do mundo, na qual Pentecostes aparece como o início da missão da Igreja.

Ler a encíclica no site do Vaticano

1992

Catecismo da Igreja Católica, n. 731 e 732

Apresenta Pentecostes como o cumprimento da Páscoa de Cristo e como o dia em que a Santíssima Trindade é plenamente revelada. O fogo, símbolo da ação do Espírito, é tratado no n. 696, e os dons, nos n. 1830 e 1831.

Teologia e filosofia

Duas palavras para o Espírito: Amor e Dom.

A tradição latina, de Agostinho a Tomás, reconhece no Espírito Santo dois nomes próprios. Eles explicam por que Pentecostes é, antes de tudo, um presente.

Amor

Quem ama põe o amado no coração. Em Deus, o Pai conhece o Filho e o Filho acolhe o Pai, e dessa mútua entrega procede o Espírito Santo, que é o próprio Amor. Tomás o expõe na Suma Teológica, I, q. 37.

Dom

Dar é entregar sem exigir retribuição, e o primeiro dom é o amor. Por isso o Espírito Santo, que é Amor, é também o Dom por excelência, dado à Igreja em Pentecostes e à alma em cada graça. Tomás o expõe na Suma Teológica, I, q. 38.

Uma questão antiga: o Espírito Santo procede do Pai e do Filho. As Igrejas do Oriente conservam o Credo de 381, que diz que ele procede do Pai. A tradição latina, que Tomás defende na Suma Teológica, I, q. 36, a. 2, acrescenta que procede também do Filho, como de um só princípio. Pentecostes é o dia em que essa vida divina é entregue à Igreja, e a discussão teológica sobre o modo da procedência segue como tema de diálogo entre católicos e ortodoxos.

Um mestre de hoje

Raniero Cantalamessa.

Capuchinho, teólogo e historiador da Igreja antiga, Cantalamessa foi por mais de quatro décadas pregador da Casa Pontifícia, função em que meditou sobre o Espírito Santo diante dos papas e da Cúria Romana.

Uma ideia recorrente em sua pregação é que Pentecostes não é apenas a lembrança de um fato passado: é um dom que a Igreja pode receber de novo, e que cada batizado é chamado a acolher. Quem deseja aprofundar encontrará, entre as suas obras, o livro Vem, Espírito Criador, meditações sobre o hino Veni Creator.

Este é um resumo nosso, e não uma citação. Para o texto exato, consulte as obras do autor.

Perguntas frequentes

Antes de começar a ler

Os Padres da Igreja são infalíveis?

Individualmente, não. Cada Padre é testemunha da fé da Igreja, e pode ter opiniões próprias que ela não adotou. O que o Magistério considera é o consenso dos Padres em matéria de fé e de costumes. Por isso o Concílio de Trento e o Concílio Vaticano I recomendam interpretar a Escritura segundo o consenso unânime dos Padres.

Preciso saber latim ou grego?

Não. Há traduções em português de boa parte dessas obras, e os sermões de Leão Magno e de Agostinho para Pentecostes são curtos e acessíveis a quem começa.

Por onde devo começar?

Sugerimos esta ordem: os Sermões 75 a 77 de Leão Magno, os Sermões 267 a 271 de Agostinho, a Oração 41 de Gregório Nazianzeno e as Catequeses 16 e 17 de Cirilo. Depois, o estudo das questões de Tomás de Aquino indicadas acima.

Continue a caminhada

O Espírito de Pentecostes continua a ser dado.

Leia a meditação do Evangelho de hoje ou entre no Cenáculo para rezar conosco rumo a Pentecostes de 2033.