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PENTECOSTES 2033

Veni, Sancte Spiritus — Vinde, Espírito Santo

A cada um é dada a manifestação do Espírito para o bem comum.

Carismas e dons: distinção teológica

Há confusão frequente, especialmente nos meios de Renovação Carismática, entre os dons do Espírito Santo (os sete listados em Isaías 11) e os carismas (graças mencionadas em 1Coríntios 12 — profecia, dom de línguas, cura, discernimento de espíritos, etc.). São realidades teologicamente distintas: confundi-las leva a erros pastorais e a expectativas equivocadas. Esta página apresenta a distinção precisa segundo a teologia católica.

Duas categorias de graça

A teologia católica distingue duas grandes famílias de graça atual:

Gratia gratum faciens — Graça santificante

São as graças que tornam santa a alma que as recebe. São dadas para a salvação pessoal de quem as recebe. Aqui se incluem:

  • A graça santificante (a vida divina na alma)
  • As virtudes infusas (teologais e cardeais)
  • Os 7 dons do Espírito Santo
  • Os 12 frutos do Espírito Santo

Gratia gratis data — Graça gratuitamente dada (carismas)

São graças dadas a uma pessoa para o bem dos outros. Não santificam necessariamente quem as recebe; servem à edificação da Igreja. São:

  • Dom de profecia
  • Dom de línguas e interpretação de línguas
  • Dons de cura
  • Operações de milagres
  • Palavra de sabedoria e palavra de conhecimento
  • Dom de discernimento de espíritos
  • Outros (dom de ensino, de assistência, de governo)

Essa distinção é desenvolvida com precisão por Santo Tomás de Aquino (Summa Theologica, I-II, q. 111). É também claramente articulada pelo Catecismo (n. 799-801, 2003).

A passagem-chave: 1Coríntios 12

O texto fundamental sobre os carismas é o de São Paulo aos Coríntios:

"Há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo... A um, pelo Espírito, é dada a palavra de sabedoria; a outro, segundo o mesmo Espírito, a palavra de ciência; a outro, no mesmo Espírito, a fé; a outro, ainda no mesmo Espírito, o dom das curas; a outro, a operação dos milagres; a outro, a profecia; a outro, o discernimento dos espíritos; a outro, a variedade de línguas; a outro, a interpretação das línguas. Mas é o mesmo e único Espírito que opera todas estas coisas, distribuindo a cada um conforme quer."

— 1Coríntios 12,4-11

Note Paulo: "a cada um conforme quer". Os carismas não são distribuídos uniformemente — o Espírito os concede livremente, segundo suas finalidades para a Igreja.

Os carismas extraordinários

Profecia

Não é primariamente "prever o futuro" — é falar em nome de Deus para edificação, exortação ou consolação da comunidade (1Cor 14,3). Pode incluir revelação de coisas ocultas, mas seu sentido principal é proclamação da palavra divina ao momento presente da Igreja.

Dom de línguas (glossolalia)

Capacidade de orar ou proferir louvor a Deus em linguagem inteligível ao orador mas não traduzível. É distinto do que aconteceu no Pentecostes original (em que os Apóstolos falavam línguas reais, compreendidas pelos peregrinos). Paulo claramente distingue os dois (1Cor 14): o de Pentecostes era xenoglossia (idiomas reais), o discutido em Coríntios era glossolalia (oração inarticulada).

Paulo regulamenta seu uso (1Cor 14,26-33): em assembleia, só com intérprete; caso contrário, em particular. Sem ordem, o dom torna-se desordem.

Dom de cura

Capacidade de servir de instrumento para cura física, psíquica ou espiritual. Atestado abundantemente na vida dos santos (São Vicente Ferrer, Padre Pio, etc.). A cura nem sempre é física — a cura espiritual e psíquica é frequentemente mais importante.

Discernimento de espíritos

Capacidade de distinguir o que vem de Deus, do próprio ego ou do espírito mau. Particularmente importante para diretores espirituais. Pode discernir motivações ocultas, autenticidade de visões, origem de uma inspiração.

Erros a evitar

Confusões frequentes

Erro 1: "Quem tem carisma é mais santo". Errado. Santo Tomás é claro: os carismas não santificam necessariamente quem os recebe. Judas Iscariotes provavelmente teve carismas (curou doentes, expulsou demônios — Mt 10,1.8) e perdeu-se. Cristo advertiu: "Muitos me dirão naquele dia: 'Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome, em teu nome não expulsamos demônios, em teu nome não fizemos muitos milagres?' Então lhes direi claramente: nunca vos conheci. Afastai-vos de mim, vós que praticais o mal" (Mt 7,22-23).

Erro 2: "Todo cristão deve ter carismas extraordinários". Errado. Os carismas são distribuídos pelo Espírito "como quer" (1Cor 12,11). Muitos santos extraordinários — Santa Teresinha do Menino Jesus, por exemplo — não tiveram dom de profecia, línguas ou cura. Sua santidade foi pela "pequena via" do amor cotidiano.

Erro 3: "Os 7 dons só agem quando há manifestação visível". Errado. Os 7 dons agem silenciosamente em toda alma em estado de graça. Não precisam manifestar-se em sensação ou sinal exterior para serem reais e operantes.

Erro 4: "Carismas substituem os sacramentos". Erro grave. Os carismas são complementares; nunca substituem a vida sacramental ordinária. Quem busca curas em "ministérios" mas se ausenta da Eucaristia está invertendo a ordem.

O critério para discernir os carismas

São Paulo dá o critério fundamental: todo carisma autêntico edifica a Igreja (1Cor 14,12). E coloca acima de tudo o "caminho mais excelente" (1Cor 12,31): a caridade.

"Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, se não tivesse caridade, seria como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência; ainda que tivesse toda a fé, a ponto de transportar montanhas, se não tivesse caridade, nada seria."

— 1Coríntios 13,1-2

Critérios práticos para discernir um carisma autêntico:

O papel da hierarquia

O Concílio Vaticano II ensina que os carismas são reais e devem ser acolhidos com gratidão, mas seu uso e discernimento competem aos pastores:

"Cabe aos que presidem a Igreja não extinguir o Espírito, mas examinar tudo e reter o que é bom (cf. 1Ts 5,12.19-21)."

— Lumen Gentium, 12

Movimentos eclesiais (Renovação Carismática Católica, comunidades novas) operam legitimamente em comunhão com seus bispos e dentro do quadro doutrinal e disciplinar da Igreja.

Síntese

O que devemos buscar?

Os 7 dons — todo cristão os tem (recebidos no Batismo, fortalecidos na Crisma). Cresçamos no uso deles pela vida sacramental, pela oração e pela docilidade ao Espírito.

Os 12 frutos — sinais visíveis da maturidade cristã. Devem ser nosso critério para examinar nossa vida espiritual.

Os carismas — recebê-los com gratidão se forem dados; não buscá-los como objetivo. Buscar é a caridade, a santidade, a comunhão com Deus.

Veja também: Os 7 dons · Os 12 frutos · O Espírito Santo na Trindade